Jordana recito-me aquele verso bonito
Com o mesmo sorriso que encontrava nela
Todas as manhãs de sábado
Manhãs nas quais nos amavamos
Como dois amantes na pequena senzala
No momento em que minha senhora
Repousava em seu leito
Eu encontrava a negra semi nua
Não para seduzir-me
E sim, porque seu ofício a rasgava as vestes
A encontrava as vezes nos cafezais
Perto das traseiras da casa grande
Sim, era minha amante
Mas eu amava perto e distante
Quando naquela, ainda madrugada matutina
Encontrei-a e vi que tinha algo para mim
Ouvi aquelas poucas linhas
Que nem mesmo sabia que ela podia escrevê-las
Quando ela cerrou seu recital
Me vi numa mistura de amor e angústia
Queria tê-la para sempre e assim o fiz
Pedi um bom vintém ao bancário
E na madrugada fugimos
Insensato eu, não reparara que nas linhas
Esconda a sua profunda tristeza
A de que a morte veio buscá-la
O que me deixou só no mundo que vivia para amá-la
E agora sobrevivo a relembrá-la
Em todas as manhãs de sábado
Velho e com barbas longas.
Gostaria de fazer responder o poema
Que ela fizera a mim
Mas não a tenho em minha presença
E assim o será.
Triste fim, assim como Shakespeare.
Nenhum comentário:
Postar um comentário