terça-feira, 30 de outubro de 2007

Foram-se as frutas do trigo
Sua semente engolida pelo couro
Foram-se os dias de sol
Seus raios não brilham mais o ouro
Foram-se os homens do mundo
Seus filhos choraram sua morte
Foram-se as andorinhas brancas
Suas asas tiveram corte
Foram-se as massas ativas
Seus militantes marchavam ao Sul
Foram-se os viajantes para longe
Suas mulheres permaneceram em Istambul
Foram-se, pois muitos partem
Mas os vasos não quebram-se, diamante
Permanecem intactos no coração do homem.

A negra Jordana

Jordana recito-me aquele verso bonito
Com o mesmo sorriso que encontrava nela
Todas as manhãs de sábado
Manhãs nas quais nos amavamos
Como dois amantes na pequena senzala
No momento em que minha senhora
Repousava em seu leito
Eu encontrava a negra semi nua
Não para seduzir-me
E sim, porque seu ofício a rasgava as vestes
A encontrava as vezes nos cafezais
Perto das traseiras da casa grande
Sim, era minha amante
Mas eu amava perto e distante
Quando naquela, ainda madrugada matutina
Encontrei-a e vi que tinha algo para mim
Ouvi aquelas poucas linhas
Que nem mesmo sabia que ela podia escrevê-las
Quando ela cerrou seu recital
Me vi numa mistura de amor e angústia
Queria tê-la para sempre e assim o fiz
Pedi um bom vintém ao bancário
E na madrugada fugimos
Insensato eu, não reparara que nas linhas
Esconda a sua profunda tristeza
A de que a morte veio buscá-la
O que me deixou só no mundo que vivia para amá-la
E agora sobrevivo a relembrá-la
Em todas as manhãs de sábado
Velho e com barbas longas.
Gostaria de fazer responder o poema
Que ela fizera a mim
Mas não a tenho em minha presença
E assim o será.
Triste fim, assim como Shakespeare.